Bem-vindo, identifique-se para lançar!

Contos & Crônicas

Capítulo 8 - Errol Flynn

... um calor no rosto que descia para o corpo inteiro - aquela mão tão grande e forte estava me provocando. Foi aí que descobri que estava virando mulher.

15/02/2023 - 10:29 | Atualizado em 27/09/2023 - 17:40

Errol Flynn

Dores nuns porque a doença dói e noutros porque só a tristeza de ver dói. Parece a porta do inferno. Já tinha ouvido falar mas ainda não conhecia porque minha mãe achava que quem gosta de dor é maldoso, e isso não era bom para criança.  Mas agora que estou moça, ela deixou.  Também, deixou mais em consideração ao Seu Alvaro e Dona Inês do que do próprio Joselito, que dizem estar mais morto do que vivo. Ai, ai, ai, isso me deixa tão borocoxô...

A enfermeira Ursula sempre ficava calada e achava que todo mundo tinha de ser igual. Coruja de olho estalado, nariz de bico, aquele cabelo tão desgrenhado que só mesmo amarrado no cocoruto pela fita de cetim vermelha, a vida inteira igual: uma jabiraca! 

Só se ouvia o eco dos passos, a sandália com salto baixo de madeira, naquele corredor comprido que ia dar no quarto de Joselito. Eu, hein, fui ficando cada vez mais quieta naquela sesmaria de horrores, que era o hospital.

Olha só que encrenca Joselito se meteu. Tão bonito... Era alto, não tanto assim, mas o necessário pra se destacar, e desde pequeno já ficava um tanto maior que eu. Foi se espichando e hoje é mais grande que o meu e o pai dele também, virou um galã. Eu nunca falo com ele porque ele vem pouco ao nosso restaurante; se bem que, vez em quando, aparece só pra tomar um cafezinho com leite lá no balcão, mas nunca nem levanta os olhos, nem fala com a gente. Só que eu sempre olho bem ele e vi que, agora, trabalhando de motorista ficou forte, um pombo de peito estufado que nem aquele que fica no alto do teto da rodoviária - uma lindeza. Tem músculos, deve ser de tanto fazer força pra carregar a carga naquele bruta caminhão. Tá até parecendo o "Rol Flin", naquele filme de piratas que ele afunda o navio dos inimigos e fica com a mocinha que também se chamava  Maria.  Maria igual a mim, e era sobrinha do chefe do navio afundado. Só que eu sou Maria Gilda e todo mundo me chama só de Gildinha. 

Me vendo acuada de medo naquele corredor, a enfermeira me diz firme que não era para ficar preocupada assim, pois ‘‘tudo que um doente pede, a gente acode’’.        

- Sabe, tia, eu gosto tanto dele... Mas desde que saímos do grupo escolar a gente só se vê de longe. Coitado, agora aqui, assim... Não sei nem o que vou falar pra ele. Ele tá conseguindo conversar, tia?

- Tá sim, um pouco. Mais geme do que fala, tem que ver, menina, uma tristeza... Agora vê lá, não vai ficar feito uma matraca. Boca fechada não entra mosca - fala só o que a necessidade mandar. Pensa numas coisas prá estimular ele; ele tá precisando é disso. Das vezes, uma pessoa doente melhora só de ser consolada  e animada prá vida.

Tia Ursula, a enfermeira, que só era tia por amizade, porque era amiga da minha mãe desde mocinha, foi entrando no quarto sem bater e quase tromba com um homem baixinho e meio gordo, também de avental branco, que eu sei que era o médico porque tinha aquele negócio de ouvir coração pendurado no pescoço e falou com um ar de conforto que ‘’o paciente estava bem melhor"...

Mas a coisa foi feia, ficou prensado na cabine e teve muitas fraturas. A operação da perna e do braço foi boa mas se queixa das costelas que doem muito, nem aguenta respirar...‘magina’ falar!  É assim mesmo, vai sofrer um pouco mas ficará bom”.  E, no fim, fazendo graça comigo perguntou: “e a moça bonita quem é, namoradinha do paciente?’’. 

Tia Ursula não compartilhou a graça do médico respondendo com um bom-dia seco, bem do seu jeito. Mas eu fiquei assim, meio que vaidosa, pois Joselito era bem o namorado que muitos brotinhos queriam ter. Confesso que fiquei mais altaneira e com tal denodo que, como a Maria do filme, eu queria ajudar o nosso "Rol Flin", o Gavião dos Mares. - Ai, aquele bigodinho, quanto it!

Tia Ursula me anunciou festiva, o que não lhe era próprio - ‘‘Olha só quem veio te ver’’, quando mal se podia ver o coitadinho escondido pelas faixas na cabeça, gesso no braço direito e nas pernas de cima embaixo, fora as escoriações que devia ter por todas as partes até naquelas escondidas pelo camisolão encardido que vestia.

"Ao meu ‘Ohhh’ quase mudo, ouvi dele um ‘’oi’’ rouco, esforçado, que veio do fundo..."

Ao meu ‘Ohhh’ quase mudo, ouvi dele um ‘’oi’’ rouco, esforçado, que veio do fundo, acho que devia ter certa alegria pela minha presença – senti isso. Porém, o seu cumprimento ficou contido pela dor nas costelas que ‘’até para respirar doí’’, conforme me contou pronunciando as palavras entrecortadas. 

Na despedida, ousei um carinho passando a costa da mão na sua testa com um olhar ardente clamando pela sua recuperação, o que o encorajou a dizer com dificuldade que ‘’na hora do acidente eu estava pensando em você’’. Vixi, nossa senhora, não tirei isso da cabeça - era muito para mim que nunca tive um namorado, só tive um boa-pinta que se encorajou, mas por desgraça tinha idade quase pra ser meu pai.

Saí apressada e morrendo de vergonha da confissão dele na frente da tia. Ora, quem diria, vindo de um Gavião dos Mares! Fui ao céu, ‘’meu ‘Rol', meu Joselito, Joselinho, Zezinho’’ – ai, como iria chamá-lo dali pra frente? – Confesso que naquele momento renasceu minha paixão!

Voltei correndo, pois já sendo quase hora do almoço papai não dava conta de atender tudo sozinho, tanta gente para almoçar a comidinha caseira de mamãe que era o maior sucesso do Tasca - o nome que papai trouxe de Portugal. Uma vez, quando um freguês falou que a mamãe ‘’a mulher do português fogava e cozinhava como ninguém’’, meu pai ficou fulo da vida e fechou a portinhola de madeira que dava do salão pra cozinha: “Páaa, ora pois, quanta abuzeira desse paspalho!” 

Desde menina eu era garçonete até que um dia aquele homem mais velho que falei, o Seu Ozório,  que tinha um carro-de-praça, me contou que quando morava numa cidade grande, longe dali, tinha sido garção por alguns anos de um grande restaurante quando lhe ensinaram o que ele chamava de ‘‘arte de bem servir’’ e agora ia ensinar tudo pra mim. Nossa, quanta bondade, adorei!

Foi assim que ele me explicou sobre higiene, não essa normal que mamãe me ensinou, mas um jeito de ficar na hora do trabalho sempre com aventais limpos, fazer coque nos cabelos, unhas aparadas, uma água de cheiro suave, nada de rouge no rosto, sapatos fechados e limpos e confortáveis, brincos bem discretos, sem anéis e balangandãs. Isso tudo era fácil porque eu fui educada assim, difícil foi aprender como carregar direito os pratos, com equilíbrio e alegria, a posição  dos talheres e  guardanapos e o jeito de falar com os clientes como, por exemplo, mesmo que eu não gostasse de dobradinha, dizer que estavam uma delícia. Se o cliente pedisse um bife mal passado eu teria que fiscalizar se estava mal passado mesmo, precisava atender direito prá ele ter vontade de voltar. Me disse para manter mesas e toalhas muito limpas e tirar as cadeiras bambas, o cliente devia ficar cômodo, sem perigo de cair - nossa, já pensou? Até na disposição dos móveis ele meteu o bico - ‘magina só'... então, troquei de lugar aquela prateleira bem antiga onde se empilhavam os pratos, ficou bem melhor. 

Um dia, cansada de anotar o que ele ensinava, perguntei se precisava disso para servir uma freguesia simples como a nossa, quando ouvi outra lição da boca daquele bondoso homem:  ‘‘temos a obrigação de ensinar aqueles que não sabem’’. Certa vez ouvi papai dizer a mamãe que os negócios iam bem porque a família trabalhava junto igual nas tascas de Portugal... e disse também que “boa parte desse sucesso se devia à nossa rapariga”. Nossa, depois disso eu não cabia mais em mim!   

No começo, Seu Ozório pegava com carinho as minhas mãos e sempre que ia me mostrar alguma coisa, segurava meus ombros e encostando bem o rosto no meu (eu gostava disso) parecia um tio ou padrinho. Depois, quando me elogiava e dava um tapinha no meu bumbum, eu ria da brincadeira. Assim foi um tempo até que comecei a sentir um calor no rosto que ia descendo para o corpo inteiro - aquela mão tão grande e forte estava me provocando. Foi aí que descobri que estava virando mulher.


Critique, faça sugestões, dê a sua opinião pelo WhatsApp: 11 9.4004.3666

 

Outras notícias

Foto: Capítulo 09 - Seu Ozório, o professor
Contos & Crônicas

Capítulo 09 - Seu Ozório, o professor

A primeira grande aventura de Gildinha com um homem feito. Uma história sensual que não é recomendada para as crianças. Peça a íntegra pelo What'sApp 11-9.7545.4043.

Foto: Capítulo 4 - Arvinho II
Contos & Crônicas

Capítulo 4 - Arvinho II

"O sangue tinge os cabelos brancos, desce pelas vestes claras, sem tempo para perguntar mais nada."

Foto: A Mula Ruana
Contos & Crônicas

A Mula Ruana

"...nas romarias, que eram dias de gala, fazia inveja à toda peãozada e alvoroçava os piás quando ouviam o tilintar das traias de argolas de alpaca que balouçavam tudo anunciando a sua chegada."

JornaldoLeilão

Cavalos e Artes

Foto: WE LOVE IT
Claudio Crespo

WE LOVE IT

Já pensou o seu cavalo ser pintado pelo CLAUDIO CRESPO? (tel 12 99779-8958). CLAUDIO CRESPO foi dono do maior estúdio de artes gráficas de São Paulo quando deixou tudo só para desenhar e pintar cavalos. Não bastasse, aventurou-se em cavalgadas pela América do Sul e bateu o recorde mundial de longas distâncias. WE LOVE IT é uma galeria aberta para grandes artistas que amam os animais.

© 2004-2024 Canal do Leilão - Todos os direitos reservados. Desenvolvido por tvleilao.net