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Contos & Crônicas

Capítulo 5 - Alvinês

"Lá, ele vende feijão, arroz, enxada, foice, ferramenta pra cochar parafuso, serrote pra cortar madeira... vende tecido, carne seca, semente de milho pra plantar no sítio, máquina de costura..."

15/02/2023 - 10:27 | Atualizado em 27/11/2023 - 11:04

Alvinês


- Papai é do outro mundo. Ele fala pouco, mas a história dele é muito bonita. 

Eu tinha menos de quatro anos, mal me lembro, eu só sei que vieram uns homens vestidos num uniforme tão bonito, aquelas botas grandes, com boné tudo igual, tinha bastante botão dourado na blusa... pareciam um pouco do jeito que é o tenente Troncoso, um amigo que papai visita toda semana desde que voltou do outro planeta. Mamãe disse que é o planeta "Andometa", pra onde os homens o levaram  de volta, quando eu era pequeninha.

-É assim, ó, eu vou contar: o vovô, pai do papai, morreu e pouco depois ele mandou chamar o papai pra ir ajudar lá no céu. Então, vieram esses homens que eu falei e levaram papai para encontrar o pai dele. Eu fui crescendo, crescendo, e hoje já tenho quase doze anos, mas sempre recebi cartinhas do papai toda semana. No começo, a mamãe lia tudo pra mim e pro meu irmãozinho – e era tão bonito o que papai contava: que lá tinha muitos amigos e ele sempre via o vovô à noite. Então, eu tinha tanta saudade mas não sofria muito por causa das cartinhas, e era gostoso ir ao correio com mamãe, eu ficava estalada de curiosa, só queria saber daquele envelope azul que de longe eu já conhecia – era da cor do céu, pois vinham de lá! 

- A professora dizia: “essa menina é sabida demais”. Sabe o que é? É que, quando a mamãe ia lendo as cartinhas que o papai mandava lá de "Andômeta", eu ficava acompanhando aquelas letras desenhadas de papai e, com tanta vontade de eu mesma ler, fui aprendendo logo, é por isso que a professora fica dizendo isso de mim. Logo, eu mesma comecei a ler as cartinhas – e Joselito, meu irmãozinho, ficava assim olhando pro céu de tanta alegria de saber que papai ia voltar logo. E olhava pra cima e via papai voando de volta, ah, a gente não via a hora dele chegar!

- Mas agora, agora está tudo bem. Papai terminou as coisas que tinha de fazer em "Andometa" e voltou, já está morando com a gente outra vez. A chegada dele foi muito bonita, é pena que a gente não viu o disco voador que trouxe ele porque só os homens de lá podem ver. E tudo que é amigo dele veio aqui e não paravam de fazer visita, acho que também tinham saudade. É tanto amigo, tanto e tanto, ele vai lá e eles vêm aqui. O único que nunca vem aqui é o Tenente, que é tão ocupado, o papai contou, porque tem que vigiar gente que briga, fica bêbado, bate na mulher e nos filhos, olha se pode... tem uns que até mataram os outros. Mas o papai é amigo dele e sabe o quanto ele trabalha e, então, toda semana vai na Delegacia visitar ele. Tem até hora certa pra ir.

- Mas o bom mesmo é que papai tem tanta história boa, todo mundo adora... e eu e meu irmãozinho só ficamos ouvindo. Às vezes, ele diz assim: “tem gente descalço na roda, essa eu não posso contar agora!”.  E manda a gente pra cama. Entendendo o que é, a gente ri e obedece. Quê fazer?

- Com essa viagem do papai, mamãe ficou trabalhando aqui na Terra com o pai dela, meu outro vovô. Quando ele morreu, foi uma dor só. Mamãe, que era a única filha, porque a vovó morreu novinha d’uma doença chamada catapora, que é de criança, mas quando dá em gente grande é difícil curar; mas ela teve outros dois filhos que também morreram d’umas desgraças desse tipo, que foi a febre amarela e a doença do barbeiro, que não sei bem o que é isso. E então eu estava contando: as coisas desse vovô ficaram pro papai e a mamãe cuidarem. E agora o papai está dando duro na loja do vovô – ele aumentou, ficou uma casona tão grande... tem seis portas de ferro que de dia ficam enroladas lá em cima e de noite ele puxa pra  fechar,  mas depois tem que prender num  cadeado grande, se não, elas enrolam pra cima outra vez. Acho que dá tanto trabalho! 

... ele vende feijão, arroz, enxada... tecido, carne seca... máquina de costura... nossa, tanta coisa!

- Lá, ele vende feijão, arroz, enxada, foice, ferramenta pra cochar parafuso, serrote pra cortar madeira... vende tecido, carne seca, semente de milho pra plantar no sítio, máquina de costura... nossa... tanta coisa que nem sei mais! Ele fica mostrando e ensinando tudo pra nós. Mas o que eu mais gosto mesmo é quando ele diz: “Alvinês, pega o livro e acha a página do Seu Tomé... escreve lá tudo o que ele comprou e põe o valor que vou te dar”. Ele somava tudo rápido no lápis que guardava em cima da orelha, daí mostrava o valor e me mandava marcar naquela coluna da direita, tinha que fazer letra bonita para depois ele entender... ah, mas também mandava marcar na caderneta do Seu Tomé.

E assim seguiu a infância e adolescência da menina Alvinês - filha de Arvinho e Inês, neta de Tião Mocó de um lado e Seu Antunes de outro - a quem o pai pretendia ensinar as coisas práticas da vida. Assim como seu pai fez pra ele, Arvinho agora ensinará a ela.


(Segue com o Capítulo 06: TURCÃO) - Clique aqui para ler

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