Capítulo 02

22 fev 2019 | 00:20:25

Rosa dos Zóio Verde

"Rosa dos Zóio Verde palitou os dentes com o espinho-agulha e depois os areou com as folhas de boldo amassadas. Cuspiu o suco amargoso e lavou as mãos na bica..."

ROSA DOS ZÓIO VERDE
            (título alterado pelo autor)

 

Djalma B. de Lima – Jun/2018


Rosa dos Zóio Verde palitou os dentes com o espinho-agulha e depois os areou com as folhas de boldo amassadas. Cuspiu o suco amargoso e lavou as mãos na bica e para enxugar saiu batucando no peito e nas ancas.

Seguiu para a sede, de onde bem cedinho saíam as ordens paras as tarefas do dia. A Seu Justino, o dono de tudo, devia respeito e admiração.  Pouco antes, não mais que a vinte passos do casarão, menina Rosa sentiu um arrepio forte, um aviso, daqueles que só os crentes entendem.

"Seu Justino bateu o pau entre os dois bichos despertando para si a cólera peçonhenta..."

Debaixo da tulha erguida sobre seis troncos fincados na terra poeirenta, ciscou um vulto esguio e sinuoso denunciado por um guiso forte que indica o tamanho da bicha - uma cascavel madura, grossa feito pau de angico com mais de oito palmos de esticadura.

Arregalou os zóio verde dum jeito que pareciam duas esmeraldas a alumiar tudo na sua volta. Caçou um pau comprido para enxotá-la, quando percebeu que o bicho se arreganhava contra um valente calango acinzentado.  Aproximou-se para ver o espetáculo. Agachou-se e enrolou o vestido nas pernas num recato inútil, sozinha que estava.

A abanação do rabo do lagarto excitava ainda mais a serpente que se encaracolou no preparo de um novo golpe. O adversário não hesitou e com a arma que a natureza lhe deu, a cauda longa e flexível, começou a açoitar batendo fortemente no dorso da adversária. Os amassos nas escamas eram sinais de fraturas nas espinhas.  Irritada, a serpente atiçava com a língua bi-partida veloz, e na boca ávida exibia suas presas peçonhentas.

Entretida com o show, Rosa dos Zóio Verde sentiu atrás de si a sombra de Seu Justino que chegava de manso e se ajoelhava para nivelar o olhar com o da menina grudado naquela arena selvagem. Justino passou os braços sobre o ombro de Rosa para alcançar o pau que mantinha na mão direita. Mandou Rosa sair devagarinho e alcançar o saco de estopa pendurado na parede da tulha. Colocando a menina um pouco atrás de si, em proteção, Seu Justino bateu o pau entre os dois bichos despertando para si a cólera peçonhenta. O calango saiu em fuga vassourando a cauda prá apagar os rastros.

Agora, a briga mudava de feição. O homem e a víbora iriam se defrontar em duelo outras vezes já assistido pela menina. Seu Justino vociferava:
- Agora te pego viva, fi’a da puta!  ‘Ocê vai ver quem manda mais neste terreiro!

Ainda agachado, vai esticando o corpo todo para trás e tocando o peito no solo e,  sem se incomodar com a tinta da terra vermelha na camisa branca, jogava a estopa contra, provocando mais a cobra. Vai recuando e agindo como um domador, com o pau na mão direita, muda o cenário da luta do porão para céu aberto, sempre mantendo olho fixo nos golpes que poderiam ser fatais. As ganachas, inflavam como fole, demonstrando toda a sua cólera.  

A luta tomou nova feição: era a Inteligência sobre o instinto; a malícia contra a ira; o caçador contra a fera.

Foi então que o bicho se irritou de vez! Requebrando-se como uma bailarina árabe, elevou o corpo quase à altura de seu próprio comprimento e se esticou para a frente no golpe definitivo.

Era o que o gladiador mais aguardava e, sabiamente, colocou o estopa à frente onde as presas se engancharam, facilitando segurá-la pela cabeça com a mão esquerda e, com a direita, o corpo que se contorcia.
- Agora, menina – gritou para Zóio Verde - traz a gaiola das cobras!

E, de repente, a tensão foi quebrada por uma  gargalhada de zombaria:
– Pronto, agora até cachorro magro mija nela! Do sertão para o viveiro do Butantã - gritava feliz Seu Justino.

Em minutos a presa estava numa na gaiola especial que seguiria para os doutores lá da capital de São Paulo. - Veneno hoje, remédio amanhã!

 

 

 

 

 

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